terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entrevista: Dr. João Menezes (Parte - 1 )

Dando sequência ao ciclo de entrevistas do blog Maconha da Lata, conversamos com o Dr. João Menezes, PhD pelo Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School e Neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

Com questões incisivas, Menezes falou sobre a maconha e as consequências do seu uso, entre outras esferas que envolvem a Cannabis. A entrevista, foi divida em duas partes, que serão publicadas hoje e amanhã. Vale a pena conferir este bate-papo com muita informação. Boa leitura!

Porque você acha que a sociedade civil tem certa dificuldade de definir oque é droga? Por exemplo, em seu depoimento (no vídeo legalização da maconha) é citado o açúcar, mas dificilmente alguém vai encarar esta droga como encara por exemplo a maconha, assim como muita gente encara o álcool com permissividade, mas demoniza a maconha. O porque desta falta de parâmetro ao se discutir o fator droga?

Não existe resposta fácil para esta pergunta que é realmente crucial.Talvez o cerne do problema atual de nossa política sobre drogas. Uma constatação é clara: não existe racionalidade na política sobre drogas ou mesmo no entendimento da sociedade do que deveria ser considerado droga.
Droga, alias, é um nome péssimo, pois mal definido, com vários potenciais significados. Substâncias perigosas como a nicotina e álcool nem sempre são entendidas como drogas, e outras bem menos perigosas como a cannabis são demonizadas ‘ad nauseum’.

Não tem como resumir este problema e suas soluções nesta entrevista. Tem bases históricas, sociais, biológicas, políticas e estas bases são variáveis de acordo com a região do planeta. Veja bem, toda cultura tem sua ‘droga de abuso’ socialmente aceita. No entanto, alguns marcos históricos são importantes para se entender o problema atual da política sobre drogas.

1. A ascensão político econômica de uma facção do cristianismo branco e protestante, principalmente na América do Norte, que advoga a sobriedade absoluta. Isto esta bem explicado e descrito no livro do Prof. Henrique Carneiro da USP - ‘Bebida, abstinência e temperança’.

2. A “curra” da China nas duas edições da guerra do ópio, onde a Inglaterra forçou o monopólio do comércio do ópio sobre a China no século XIX. Isto desencadeou uma série de discussões vinte anos depois, capitaneada pela própria China, mas incorporada pela indústria química europeia nascente na época. Isto levou a regulamentação do comércio internacional de fármacos e plantas, cujo foco principal foi proteger os interesses comerciais de países europeus. Ficou conhecido como ‘tratado do ópio’, que, com ajuda de Brasil, Egito e EUA terminou incluindo a proibição da Cannabis. Poucos países assinaram este tratado, mas foi a base do atual tratado de 1961 da ONU (com suas atualizações posteriores), que também proíbe a Cannabis internacionalmente.

Estes dois fenômenos históricos, aliados ao fim do escravagismo e a natureza humana de segregação tribal, transformaram as drogas de medicamentos populares acessíveis a todos em uma mercadoria lucrativa e uma maneira de segregar e controlar socialmente classes e etnias. O proibicionismo transformou-se numa poderosa arma político-social. Mas tudo isto, na verdade, tem como base fundamental o funcionamento de nosso cérebro e o mistério da construção de nossa consciência. Não entendemos nossa consciência e muitos tem medo das ações e atividades que possam modificá-la. É o medo ancestral da loucura. No entanto, a constância da nossa identidade mascara a inconstância da nossa consciência ao longo do tempo. 


Poucas pessoas notam quão naturalmente fluidos são nossos ‘estados de consciência’. O maior exemplo é o sono, diariamente perdemos nossa consciência e não achamos nada demais! Mas, ao longo dia nosso fluxo de consciência também muda constantemente. Comida, por exemplo, pode modificar substancialmente nossa consciência, podemos ficar mais alertas, mais sonolentos, mais satisfeitos, etc. Neste sentido comida pode ser considerada droga, pois muda nossa fisiologia as vezes tanto quanto qualquer medicamento com ação no sistema nervoso (SN). Certas substâncias provocam modificações mais perceptíveis, como álcool, heroína, cocaína e maconha; outras causam alterações mais sutis como café, tabaco, e açúcar. Mas todas estas substâncias podem ser consideradas drogas com efeito no SN.

A discriminação entre o que é droga perigosa e o que não é atualmente segue critérios irracionais. Por exemplo, eu considero o açúcar refinado a droga mais perigosa atualmente à disposição da humanidade, mas interesses comerciais e nossa própria cultura impedem uma aceitação generalizada deste fato. Quando estudante de medicina, na minha experiência de dois anos em plantões médicos em unidades de tratamento intensivo, vi talvez um ou dois casos de internação por droga (ilícita), mas a grande maioria dos pacientes estava internada por causa do consumo rotineiro de açúcar, doenças causadas pela obesidade, problemas cardíacos, hipertensão, diabetes mellitus do tipo II, etc. Mas isto esta mudando, esta semana, foi publicado um comentário na prestigiosa revista Science, cuja conclusão é que o açúcar pode ser tão perigoso quanto o álcool e deve sofrer as mesmas regulamentações e controle. Ou seja, já tem gente que entende o riscos do açúcar como droga.

Quando se fala em perda de memória por uso de maconha, principalmente quando é falado por leigos, a impressão que se passa é que um usuário crônico de maconha vai ter danos irreversíveis e permanentes. Enfim, a perda de memória é apenas daquela memória recente e quando a pessoa está sob o efeito da maconha, ou realmente o uso crônico pode resultar em um dano irreversível?

Nenhuma substância que age no cérebro é totalmente inócua, especialmente se o uso ocorre durante o desenvolvimento cerebral, principalmente durante o período embrionário até o fim da adolescência. No entanto, as evidências de que o uso crônico da maconha em adultos causam dano cognitivo permanente não são definitivas. Pelo contrário, evidencias recentes mostram que o uso moderado (uma média de um baseado por dia durante 7 anos) não causa alterações nos processos cognitivos como aprendizado e memória. Os efeitos agudos (não permanentes) com certeza afetam processos cognitivos em qualquer idade. Além da ação direta destas substancias na formação dos circuitos cerebrais (processos que ainda não entendemos bem), o uso crônico e frequente por adolescentes pode causar, sim, distúrbios cognitivos se não permanentes, duradouros. Os efeitos agudos da Cannabis, reversíveis, sobre a memória e outros processos cognitivos são bem documentados. Desta forma, ouso frequente, que englobe o período das tarefas escolares, pode prejudicar o aprendizado, em um período fundamental da vida do jovem e de forma indireta pode causar dano permanente, pois o jovem deixa de adquirir conhecimento e habilidades que lhe estavam sendo ensinadas naquele momento.

No caso de adultos jovens acima de 20 anos as evidências de danos permanentes são negligíveis ou inexistentes. Não é incomum relatos de usuários adultos descrevendo que o uso da Cannabis pode ser até mesmo positivo para seus trabalhos intelectuais. Mas acredito que isto advém deum aprendizado pessoal no uso da droga. E mesmos nestes casos, a maioria destes indivíduos tendem a evitar o uso nas atividades que envolvam novos aprendizados e conhecimentos, em geral relatam o uso para criar e não para aprender. Em resumo, crianças e adolescentes podem não se beneficiar do uso como adultos, podem mesmo ter prejudicados a construção da sua circuitaria cerebral e afetar o seu rendimento escolar, pois prejudica as habilidades necessárias para a aquisição de novos conhecimentos, mesmo que seja um efeito temporário durante o uso da droga.

Na sua opinião, porque quando se fala em descriminalização ou mesmo a legalização da maconha, com toda certeza alguém questiona a situação da saúde pública no Brasil, que não dará conta de atender os viciados da maconha. Contudo, quando se compara os números de dependentes das outras drogas, como álcool, cocaína, tabaco, ainda sim o número de dependentes de maconha é infinitamente menor. A maconha realmente seria um caso de saúde pública ou é na verdade mais um sensacionalismo que já vem sendo explorado sobre a maconha desde que se adotou o conceito de guerra às drogas?

Sim, é uma cortina de fumaça, um argumento sem substância. No entanto, existe sim a possibilidade de aumento no número de usuários. Mas como menciono abaixo, este incremento não deve causar um impacto maior nos custos da área da saúde que a atual política proibicionista. Na Oceania, por exemplo, onde o uso de Cannabis eh um dos mais altos do mundo, o impacto sobre o sistema de saúde é mínimo, numa ordem de grandeza pelo menos dez vezes menor (ou menos) do que o álcool e tabaco. Menos de 0.2% do custo com problemas de saúde. Um exemplo importante é a Holanda, onde a procura espontânea por tratamento por abuso da Cannabis (espontânea por que inexiste, ou é raro, tratamento mandatório pela justiça) é proporcionalmente muito elevada, e mesmo assim, menos de 1% (um pouco mais de 0.5%) dos usuários procura tratamento. Ou seja, o impacto no sistema de saúde após a legalização não deve ser significativo.

Além disto, o tratamento do uso abusivo e da dependência devem ser muito facilitados pelo manto da legalização. A procura por tratamento não será prejudicada pelo medo da polícia. O acesso a Cannabis pelo grupo mais vulnerável, os adolescentes menores de idade, provavelmente será dificultado com o fim do monopólio do tráfico. Campanhas de orientação poderão ser realizadas de forma mais franca, realista e verdadeira. Finalmente, acredito que com o fim do estigma marginal, devem diminuir as reações negativas em alguns dos usuários, como paranoia, delírios persecutórios, culpa, medo, etc. Em conclusão, a legalização deve levar a uma grande economia de recursos na área da saúde, e não ao contrário. (...)

Por Dr. João Menezes

Fonte: http://maconhadalata.blogspot.com

(A entrevista, foi divida em duas partes, que serão publicadas hoje e amanhã...)

2 comments:

rodrigo disse...

Simplesmente S E N S A C I O N A L. É confortante ver que pessoas "de peso" se propõem a esclarecer fatores históricos-sociais que geram essa grande hipocrisia atual em torno da cannabis. Muito obrigado ao Dr. João Menezes e parabéns pelo trabalho.

lucas gouvea disse...

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