terça-feira, 20 de março de 2012

Entrevista: Confira o nosso bate-papo com Rodrigo Mac Niven, cineasta do Cortina de Fumaça

Atualmente existem alguns documentários de destaque no cenário antiproibicionista. Um deles é o Cortina de Fumaça, produzido pelo cineasta Rodrigo Mac Niven, que nos concedeu uma bela entrevista sobre toda este crescente olhar da sociedade sobre o fracasso chamado guerra às drogas. Confira o nosso bate-papo e tenha uma boa leitura.

Conte como você teve a ideia de fazer o documentário Cortina de Fumaça?

A partir da leitura do livro "MACONHA", do Denis Russo, à época editor da revista SuperInteressante. Depois que li o livro, comecei a buscar mais e mais informação, já com o intuito de fazer alguma obra audiovisual. Depois, quanto mais eu ia lendo e pesquisando, mais eu tinha convicção da importância de fazer um filme sobre esse tema.

Você acredita que com toda essa intensa mudança comportamental em que vivemos, a tendência é que a cada ano que se passe o uso de drogas se tornem mais comum, seja drogas ilícitas ou da milionária indústria farmacêutica?

Acho que o uso de drogas pode aumentar em números absolutos, mas não em percentual na população mundial. Talvez um pouco. Vai aumentar porque a população mundial não para de crescer e, como usar drogas sempre foi um hábito do ser humano, esse número também vai crescer... Mas aí estou me referindo a todas as drogas, mesmo aquelas vendidas nas DROGARIAS. Penso que quem toma remédio pra dormir (e não consegue mais dormir sem ele), quem toma Rivotril pra suportar a pressão do dia-a-dia (e não consegue levar o dia sem o medicamento) ou quem toma remédio para dor de cabeça com frequência são pessoas drogadas e dependentes. Os principais malefícios das drogas ilícitas surgem justamente por elas serem proibidas. Regulamentadas, poderíamos ter estudos e dados reais sobre seus usos e abusos, municiando a sociedade com informações concretas, realmente capazes de moldar políticas públicas eficientes. Política pública hoje é feita a partir do medo, do preconceito e da desinformação.

Os métodos de criação da sociedade atual em que pregam o “medo” e a “demonização das drogas” na verdade não estaria atrapalhando ao invés de ajudar, quando falamos de educação sobre drogas, principalmente a maconha?

Acabei me adiantando na resposta anterior... Como falei, políticas públicas devem ser criadas a partir de informações de diversas disciplinas que compõem o "saber", inclusive as informações daqueles que se envolvem com o vício e buscam saída. Viver esse drama também é um "saber" que precisa ser absorvido e utilizado. No entanto, sensatez é qualidade em extinção na esfera dos legisladores. Se você tirar as reportagens sobre violência nos telejornais e jornais do país, muitos jornalistas perderão o emprego e muitas folhas em branco irão sobrar. E dessas reportagens, quase todas conseguem, de alguma forma, incluir as drogas... Até o caso de Pinheirinho, que foi uma violência autorizada, conseguiram botar o CRACK como justificativa.

As drogas criminalizadas servem para justificar qualquer ato de violência e de inconstitucionalidade. Como diria Nilo Batista, no "Cortina de Fumaça": "se tiver droga aqui a polícia pode entrar e arrombar aquela porta, nos revistar todos; ela legitima tudo!". Quebrar essa lógica é questionar todo um sistema, por isso é tão difícil. No final das contas estamos falando de educação. Os meios de comunicação querem uma população educada? Querem as pessoas pensando e questionando? Acho que não! Sorte a nossa, e das gerações futuras, que o monopólio da informação acabou. A internet, ao meu ver, é a grande ferramenta de disseminação de novas ideias. Temos que protegê-la a qualquer custo.

Neste cenário de "desinformação", todas as drogas pagam o preço. Sou a favor da regulamentação da produção, distribuição, comércio e consumo de todas as drogas, aliás, de tudo que o ser humano quer consumir, exceto os instrumentos cuja única finalidade seja matar. Se o ser humano inventou ou descobriu, e quer experimentar e consumir, a sociedade precisa achar uma forma de regulamentar isso com o mínimo de dano possível... POSSÍVEL, porque "dano zero" não existe. E aí vem a importância do conceito de redução de danos.

Por que uma parcela da sociedade ainda se mostra tão resistente à ideia da redução de danos?

Porque a mídia não fala dela, pois pra falar dela, vai ter que falar de REGULAMENTAÇÃO, vai ter que reconhecer que a GUERRA ÀS DROGAS não serve para a sociedade, mas apenas para alguns grupos que ganham muito dinheiro com ela. Pensemos, quanto de dinheiro é injetado nas campanhas de segurança, nas UPPs, nos helicópteros blindados, nas viaturas? E quantas campanhas eleitorais foram e serão ganhas com base no medo, na repressão, na promessa do fim da violência? Como bem disse a Amanda (também no Cortina de Fumaça), "há um número enorme de carreiras que dependem dessa política repressiva, mudar isso é mexer com a vida de todas essas pessoas".
Bem, se não está na grande mídia, fica mais difícil de disseminar a informação, mas, como falei anteriormente, está cada vez mais fácil dessa lógica quebrar. Nossos pais e avós foram criados a serem informados de forma passiva, esperando o jornal da Globo, da Manchete, da Record, do SBT, hoje, as gerações que aí estão (e as que virão) não terão mais esse comportamento passivo. Não vai ter como segurar e as coisas mudarão. É inevitável. Sou bastante otimista quanto a isso.

Para você, até que ponto a indústria farmacêutica tradicional influência na proibição da maconha, não apenas no Brasil, mas no mundo – visto que o lobby (mesmo que ilegais em alguns países, como aqui no Brasil) é uma prática comum na política?

Não saberia quantificar, mas penso que elas fazem parte desse grande lobby proibicionista. Assim como as indústrias de cerveja, de cigarro, assim como todos aqueles que de alguma forma lucram com este cenário. Repito, a lógica do medo gera muito dinheiro,serve pra muita gente, menos pra nós, sociedade civil.
No caso da maconha é ainda mais grave porque além de poder geram bem-estar, ela tem um potencial comercial/industrial gigante.

Qual o motivo, por exemplo, de quando se fala na questão da descriminalização da maconha, principalmente quando é debatida em veículos de comunicação, a questão fica muito presa apenas ao uso do efeito entorpecente da maconha, sem, por exemplo, explorar outras vertentes importantíssimas do cannabusiness ,como a maconha industrial, medicinal , religiosa, entre outras?

Num primeiro momento a desinformação. Depois de dada a informação, vem o preconceito. Esse é o mais difícil de quebrar. Já ouvi muita gente, depois de debates, me falando que concordam comigo "mas a legalização...não sei...". As pessoas não têm mais argumentos, mas se prendem ao preconceito. O caminho, pra mim, é fazer da mesma forma que fizeram para convencê-las das ideias preconceituosas; inundá-las com novas informações, quebrar os argumentos falsos e mentirosos e fazer isso constantemente, sem parar, até que as mentes mudem. E fazer isso com as gerações novas, essas são as mais importantes. Os filhos de hoje serão os pais de amanhã e assim perpetuaremos a clareza, a informação, a EDUCAÇÃO PARA AUTONOMIA. Isso é fantástico! Temos que educar as pessoas para que elas possam tomar suas decisões de forma embasada e consciente coletivamente. E educá-las a educar seus filhos dessa mesma maneira. Como falei anteriormente, a mudança vai acontecer, é uma questão de tempo.

Quando se fala nesta guerra travada entre Estado e tráfico de drogas, as quais são transmitidas em tempo real na TV – como foi o caso da ocupação do Complexo do Alemão- para você, a questão chave para essas invasões é uma preocupação do Estado com a saúde pública ou com o território do seus domínios que foi roubados e controlados por milícias e traficantes?

Neste caso específico a preocupação é com Copa e Olimpíadas. Se houvesse qualquer preocupação com Saúde Pública ou controle do Estado, não seria feito da forma que foi. O que vemos com as UPPs é a repetição de um método internacional de lidar com os "restos sociais" de um sistema excludente por natureza. A guerra às drogas é a justificativa. Em todo mundo, cada vez mais, as grandes cidades são rodeadas pelos bolsões de miséria. Isso é feito através da criminalização e expulsão dos ditos "criminosos". O governo, que deveria tratar dessa questão de forma responsável, opta pela varredura dessas pessoas. Quanto mais distante do centro da metrópole, melhor. No caso do Rio, isso é bem mais complicado por causa da geografia da cidade. Morros nascem nas praias. O Leblon está do lado do Vidigal, a Rocinha fica entre Zona Sul e São Conrado, bairro caríssimo do Rio. Claro que a Zona Sul está mais tranquila, aparentemente, mas e o resto da cidade? Quantos policiais e militares serão necessários para manter essa brincadeira? Até quando? Os assassinatos diminuíram, mas os desaparecimentos, esses, parece que aumentaram. Não tenho evidências concretas disso, mas é o que se tem comentado.

Fecho essa entrevista levantando uma questão sobre a qual me debruço atualmente: as armas. Seja bandido, policial ou sociedade civil. Quem ganha dinheiro mesmo com tudo isso, de todos os lados, são os fabricantes de armamentos. Se a gente quer paz, de verdade, como podemos conceber a presença de forças armadas como solução? Chegamos à loucura de adorar e eleger uma instituição para nos proteger, sendo que o símbolo máximo dessa instituição é uma caveira, é a face da morte. Escolhemos a "morte" para nos trazer paz. Tem algo de muito torto nisso tudo. E a maconha, coitada da planta, vira a encarnação do demônio.

FONTE: http://maconhadalata.blogspot.com

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