sábado, 8 de janeiro de 2011

Titanic da erva

"A história das latas de maconha em alto mar no Rio vai virar filme"

Pescadores que velejavam em algumas praias do Rio de Janeiro e de São Paulo no dia 22 de setembro de 1987 tiveram uma visão: latas fechadas pareciam brotar do mar em direção à orla. Eles ainda não sabiam, mas dentro de cada recipiente metálico havia cerca de um quilo e meio de maconha de “alta qualidade”. A polícia litorânea se esforçava para apreender o material. Em vão: menos de 10% das 20 mil latas foram recolhidas. O restante ficou ao léu, afundou ou foi capturado por curiosos que protagonizaram o episódio conhecido por verão da lata.

A história, por si só, é tão boa que o diretor João Falcão vai fazer um filme sobre ela. Com os nomes provisórios Verão da Lata ou Nunca Haverá um Verão Como Esse, o longa vai reproduzir a trajetória de gente que teve contato com as latas - com licença poética para aumentar e criar lendas urbanas. O período está definido: entre setembro de 1987 e março de 1988 as latas ainda apareciam. O foco será o empenho de caiçaras e surfistas para encontrar aquele “tesouro” e sua capacidade de tornar praias quase inabitadas em point na época.

Falcão vai reproduzir a aura de loucura que tomou conta dos que se lançavam em busca da erva em alto mar que havia chegado com o navio Solana Star, cargueiro da Austrália. “Imagine quanto tipo de história dá para contar a partir desse fato?”, diz o diretor de filmes como Fica Comigo Essa Noite e O Auto da Compadecida. Será o primeiro longa totalmente feito pela produtora de João Falcão.
Serão pescadores, surfistas e usuários dispostos a tudo por uma lata com o entorpecente cannabis indica, princípio ativo mais forte que a cannabis sativa (a mais comercializada). “Naquele momento não havia droga com aquele componente no Rio e em São Paulo. Fez muito sucesso”, diz Falcão.

Identificadas como “sono profundo”, “tosse comprida” e “panetone”, a maconha da lata  virou sinônimo de coisa boa. “Passou-se a usar a expressão ‘da lata’ para identificar que aquele conteúdo tinha qualidade”, explica Marcelo Dantas, roteirista do filme PodeCrer.

Segundo Dantas, o verão da lata foi o último suspiro “pós-hippie” do Rio de Janeiro, quase uma ressaca dos traumas da época: a violência que aumentava, o Plano Cruzado que havia falhado, a Aids que assombrava. “Havia a sensação dos usuários de ter escapado da polícia e dos traficantes. A maconha vinha do mar, como dádiva de Deus.”

João Falcão quer justamente reproduzir nas telas de cinema o “clima de comédia generalizada” que tomou conta do litoral. No filme não faltarão “malucos” que saíam em direção às praias para pegar latas, surfistas que se mantinham horas em cima das pranchas para fugir da polícia, caiçaras que enterravam o fumo na areia, pescadores que enriqueceram ao traficar.

“Tem gente que diz ter usado a maconha da lata para educar os filhos”, fala o diretor. Outra história que provavelmente vai estar no longa é a do garoto que estudava para ser piloto e usava os aviõezinhos do aeroclube em vôos rasantes para amedrontar surfistas em alto mar em busca das latas.

Um pouco de lenda

O psicanalista e professor na pós graduação na PUC-SP, Oscar Cesarotto, também se baseou no verão de 1988 para criar fatos fictícios em seu livro O Verão da Lata (Iluminuras, 2005). “Fora do País, ninguém acredita que isso aconteceu.”

Cesarotto comemora o fato de haver um projeto de filme sobre o assunto: “Tem gente que ainda pensa que no navio naufragado tem milhares de latas que não foram soltas no mar.”

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